Carta de São Vicente, por José de Anchieta

Prefácio

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Em , quando a pedido de seus superiores, o José de Anchieta com excepcional capacidade de observação, escreve a carta de , a Mata Atlântica compunha ainda um maciço florestal de mais de 1.100.000 km², em perfeito equilíbrio. Não era uma grande área desocupada, ao contrário, milhares de indígenas com ela conviviam, daí tirando todos os bens necessários à sua alimentação, saúde, abrigo e cultura material e espiritual.

Anchieta, cuja erudição é notável no trato dos mais variados temas, nos oferece um dos mais completos e belos documentos sobre a Mata Atlântica de então, descrevendo “as coisas naturais da ” detalhando a diversidade e exotismo de nossa fauna e flora e seu uso pelos indígenas e pelos brasileiros, resultantes da mescla daqueles com os europeus aqui chegados. Em alguns trechos, os mitos se confundem com a realidade, como quando descreve os beija-flores: “Há ainda outros passarinhos, chamados guainumbî, os mais pequenos de todos; alimentam-se só de orvalho; dêsses há vários generos, dos quais um, afirmam todos, que se gera da borboleta.” Isto todavia não lhe rouba o valor documental, antes o enriquece, ao fornecer elementos culturais fundamentais ao conhecimento de nossa . A carta de São Vicente traz também informações preciosas sobre os costumes e a língua de nossos índios, sobre plantas medicinais e importantes elementos de nossa culinária.

Também em outros documentos posteriores, como na “Informação da do Brasil para nosso Padre – 1585”, Anchieta volta a descrever nossa floresta e sua incrível biodiversidade, o que sempre faz com grande conhecimento e admiração e também com sensibilidade poética como atesta o trecho a seguir: “Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvores nem erva sêca. Os arvoredos se vão ás nuvens de admiravel altura e grossura e variedade de especies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que ha neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade

e em seu canto não dão vantagem aos rouxinois, pintasilgos, colorinos, e canarios de e fazem uma harmonia quando um homem vai por êste caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. Ha muitas árvores de cedro, aquila, sandalos e outros paus de bom olor e várias côres e tantas diferenças de folhas e flores que para a vista é grande recreação e pela muita varidade não se cansa de ver.”

A Carta de São Vicente é um dos diversos documentos do “apóstolo do Brasil” que chegaram aos nossos graças à pesquisa de vários historiadores e publicações dos séculos dezessete, dezoito, dezenove e vinte. A versão aqui apresentada reproduz integralmente, incluindo a ortografia, aquela publicada em 1933 pela Editora Civilização Brasileira sob o título de “Cartas – Informações, Fragmentos Históricos e Sermões do Padre Joseph de Anchieta, S. J. (1554-1594)”, gentilmente cedida a esse Conselho pelo Dr. Paulo Nogueira – Neto.

As notas que a seguem são da autoria do Dr. Afrânio do Amaral, então diretor do Instituto Butantan, do Dr. Olivério Mario de Oliveira Pinto, assistente do Museu Paulista e do Sr. Pio Lourenço Correia. A nota de número 1 indica outros colaboradores. Em respeito ao documento manteve-se sem alterações  informações taxonômicas, mesmo que tenham sido posteriormente alteradas pela ciência.

Escrita em São Vicente, “que é a última povoação dos portugueses na Índia Brasílica voltada para o sul, no ano do Senhor 1560, no fim do mês de maio”, essa carta é a primeira descrição detalhada da Mata Atlântica de que se tem conhecimento. Por essa razão o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera, propôs a declaração do 27 de maio como dia nacional da Mata Atlântica, homenageando simultaneamente a floresta-mãe da Nação Brasileira e o Padre José de Anchieta, no momento em que os 400 anos de seu falecimento são celebrados.

Clayton Ferreira Lino
Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica

Fonte:
ANCHIETA, Padre José de. Carta de São Vicente, 1560. São Paulo: Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. 1997, pp.7-8