Carta de São Vicente, por José de Anchieta

Parte 3

Das ervas e árvores

Preparação da farinha de mandioca, por George Marcgrave e Willem Piso em 1648.
Mandioca, por George Marcgrave e Willem Piso em 1648.

Das ervas e árvores não quero deixar de dizer isto, que as raizes a que chamam mandioca1À mandioca (Manihot utilissima Pohl) refere-se mais detalhadamente na Inf. de 1585., de que nos utilizamos como alimento são venenosas e nocivas por natureza, se não forem preparadas pela indústria humana para se comerem; comidas cruas matam a gente, assadas ou cozidas comem-se; todavia, os porcos e os bois as comem cruas impunemente; se porém beberem o suco que delas se expreme, incham de repente e morrem.

Ha outras raizes chamadas yeticopê2Segundo Miranda de Azevedo (pref. á trad. cit. de Vieira de Almeida, p. XII), “da descrição bem evidencia-se que se aplica tudo ao jacatope, Pachyrrhyzus angulata, raiz bulbifera grossa, produzindo 10% de fecula saborosa e apreciada.”, semelhantes ao rabão, de agradavel sabor, muito apropriadas para acalmar a tosse e molificar o peito. A sua semente, que se assemelha a favas, é um violentíssimo veneno.

Entre outras, ha aqui certa erva espalhada por toda a parte e que muitas vezes vimos e tocámos, a que chamamos viva3É a sensitiva, leguminosa da sub-familia das Mimosaceas., porque parece ter tal ou qual sentimento: pois, se a tocares de leve com a mão ou com qualquer outra cousa, imediatamente as suas folhas, fechando-se sôbre si mesmas, se ajuntam e como que se grudam; depois, daí a pouco tornam a abrir-se.

Copaíba, por George Marcgrave e Willem Piso em 1648.

Das árvores uma parece digna de notícia, da qual, ainda que outras haja que distilam um líquido semelhante á resina, util para remédio, escorre um suco suavissimo, que pretendem seja o balsamo, que a princípio corre como oleo por pequenos furos feitos pelo carancho ou tambem por talhos de foices ou de machados, coalha depois e parece converter-se em uma especie de balsamo; exala um cheiro muito forte, porém suavissimo e é otimo para curar feridas, de tal maneira que em pouco tempo (como dizem ter-se por experiência provado) nem mesmo sinal fica das cicatrizes.4Trata-se da cupaigba (F. Cardim, o. c., p. 62), copaíba (G. Soares, o.c., p. 183), copiiba (Marcgrav), copayva (Lara Ordoñez, 1. C.), copahyba, copauva, cupay, copiuba ou cupahyba, nome comum a váras especies da familia das Leguminosas, divisão das Caesalpiniaceas, das quais as mais importantes são a copaiba do Pará (Copaifera reticulata Ducke), verdadeira (Copaifera officinalis L.), e vermelha (Copaifera Langsdorffii Desf.), conforme se vê em M. Pio Corrêa (Dicionario das Plantas Uteis do Brasil, II, Rio, 1931). De “etimo incerto”, segundo R. Garcia (nota a F. Cardim, p. 124). Para T. Sampario (o. c.), “corr. cupa-yba, a árvore de depósito, ou que tem jazida”.

Ha tambem outras árvores que enchem por toda a parte os esteiros do mar, onde nascem, cujas raizes, algumas brotadas quasi do meio do tronco, outras do ponto em que os ramos que rebentam se dirigem para cima, quasi do comprimento de uma lança, se inclinam pouco a pouco para a terra, até que no fim de muitos dias chegam ao chão.5Mangues, referindo-se ao mangue vermelho, da familia das Rizoforaceas (Thyzophora mangle L.). Canapaúba de G. Soares (o. c., página 199).

Sapucaia, por George Marcgrave e Willem Piso em 1648.

Na povoação que se chama Espirito Santo é muito comum uma certa árvore muito alta, cujo fruto é admiravel. Êste é semelhante a uma panela, cuja tampa, como que trabalhada a tôrno, com que está pendente da árvores, se abre por si mesma quando está maduro: aparecem então dentro muitos frutos semelhantes a castanhas, separadas por delgadas tiras como interposto septos, muitissimo agradaveis ao paladar. O vaso ou urna, em que estão encerrados, não é menos duro que a pedra, e pode-se facilmente julgar do seu tamanho pelas castanhas que contém, que passam de cincoenta.6É a jaçapucaya (F. Cardim, o. c., p. 59), zabucaes (Gandavo, Hist., p. 97), sabucai AGL Soares, o. c., p. 172), çapucaya (S. de Vasc., o. c., 1. Das Not., n.86), çapocaia (Lara Ordoñez, 1. C.) ou sapucaia, nome generico das várias especies de Lecitidaccas, genero Lecythis.

Ha, além disso, pinheiros7Pinho do Paraná, da familia das Coniferas (Araucaria brasiliana, Rich.). de altura estupenda; propagam profusamente ocupando o espaço de seis ou sete milhas. Os Indios dão aos seus frutos, por antonomasia, o nome especial de ibá, isto é, fruto (nome aliás comum aos demais frutos); são compridos como os nossos, mas muito maiores, de casca mole, semelhantes á amendoa das castanhas. Os lugares que ficam para o sententriãonão produzem destas árvores.

Ha diversas árvores de frutos excelentes para comer-se, muitos de suavíssimo cheiro, e de mui deleitavel sabor.

Uteis á medicina não ha só muitas árvores, como raizes de plantas; direi, porém, alguma cousa, maximè das que são proveitosas como purgantes.

Ha uma certa árvore, de cuja casca cortada com faca, ou do galho quebrado, corre um líquido branco como leite, porém mais denso, o qual, se se beber em pequena porção, relaxa o ventre e limpa o estomago por violentos vomitos: por pouco, porém que exceda na dose, mata. Deve-se, emfim, tomar dele tanto quanto caiba em uma unha e isso mesmo diluido em muita água; se não se fizer assim, incomoda extraordinariamente, queima a garganta e mata.8Talvez seja a árvores a que se refere Gandavo (o. c., p. 100), com o nome indigena de obirá paramaçací, indagando Miranda Azevedo (1. C., p. XI): “Será a gameleira, Ficus doliaria de Martius, bela árvore de dez a doze metros de altura, que no mês de agosto fornece em mais abundancia o suco lactescente pelas incisões que sofre? Ou será o jaracatiá, Carica dodecophylla de Veloso, com propriedades terapeuticas semelhantes, e tão usada ainda no Interior em várias infecções?”

Ha uma certa raiz, abundante nos campos, utilissima para o mesmo fim; raspa-se e bebe-se misturada com agua; esta, se bem que provoque o vômito com bastante violencia, todavia bebe-se sem perigo de vida.9Talvez se refira Anchieta, como sugere Lara Ordoñez, á ipecacuanha, igpecacóaya de F. Cardim (o. c., p. 73), pecacuem de G. Soares (o.c., p. 187) ou poaia, da familia das Rubiaceas, de que ha várias especies.

Ha tambem outra, chamada vulgarmente marareçó; as suas folhas parecem as do bordo, a raiz pequena e redonda, que se come assada ou bebe-se esmoida com agua, exposta por uma noite ao sereno.

Descobriu-se ultimamente outra, que é tida em grande estima e com razão. Esta é oblonga e delgada, contundida e deixada de infusão em agua pelo espaço de uma noite, bebe-se de manhã sem dificuldade, não causa nausea, nem produz fastio; desembaraça, porém, o ventre com abundante fluxo, que cessa logo que se tome algum alimento, o que é comum ás de que falei ha pouco.

Ha, além destas, várias outras que servem muito para soltar o ventre, quanto para o prender. Exceto os frutos de certas árvores, quasi que nenhum remédio eficaz se encontra.

Até nas pedras se encontra o que admirar e com que exaltar a onipotencia do supremo e otimo Deus, maximè em uma que  servepara afiar espadas; mas tem isto de maravilhoso, que qualquer parte  dela que tocares em as mãos se torna flexivel como o couro e a moverás como cousa apertada por um nó, de maneira que não parece uma pedra só, mas sim muitas reunidas por diversas juntas.10Nota de Lara Ordoñez (l. c.): “Arenarius flexilis, L., vulgo pedra elastica. É de certo flexivel, mas não me pareceu de modo algum elastica, nem muito flexivel. E Anchieta, dizendo-a “maleavel como couro”, fala hiperbolicamente; a que vi mais flexivel, presentemente guardada no Museu da Real, com cêrca de 16 polegadas de comprimento e 4 linhas de altura, tomou a forma de um arco de 20º”.

Encontram-se em certo rio habitado pelos inimigos, a umas 50 milhas de Piratininga, muitas conchas, nas quais se criam certas pedrinhas transparentes, que querem sejam perolas: têm o tamanho do grão de bico e algumas maiores.

Isto é quanto me ocorre dizer das árvores, plantas e pedras. Acrescentarei agora poucas palavras acêrca dos espectros noturnos ou antes demonios com que costumam os Indios aterrar-se.

É cousa sabida e pela bôca de todos corre que ha certos demonios, a que os Brasis chamam corupira, que acometem aos Indios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-os e matam-os. São testemunhas disto os nossos Irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso, costumam os Indios deixar em certo caminho, que por asperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras cousas semelhantes como uma especie de oblação, rogando fervorosamente aos curupiras que não lhes façam mal.11Escreve Couto de Magalhães (O selvagem, ed. 1913, p. 157): “O curupira é o deus que protege as florestas. As tradições representam-o como um pequeno tapuio, com os pés voltados para trás e sem os orifícios necessarios para as secreções indispensaveis á vida, pelo que a gente do Pará diz que ele é mussiço. O curupira ou currupira, como nós lhe chamamos no Sul, figura em uma infinidade de lendas, tanto no Norte como no sul do Brasil. No Pará, quando se viaja pelos rios e se ouve alguma pancada longínqua no meio dos bosques, os remeiros dizem que é o curupira que está batendo nas sapupemas, a ver se as árvores estão suficientemente fortes para sofrerem a ação de alguma tempestade que está proxima. A função do curupira é proteger as florestas. Todo aquele que derriba, ou de qualquer modo estraga inutilmente as árvores, é punido por ele com pena de errar por tempos imensos pelos bosques, sem poder atinar com o caminho da casa, ou meio algum de chegar até aos seus.” Ermano Stradelli (Vocabularios da lingua geral português-nheêngatú e nheêngatú-português, na “Rev. do Inst. Hist.”, t. 104, v. 158), serve-se quasi das mesmas palavras de Couto de Magalhães. Acrescenta, porém, que não só a floresta mas tambem a caça se acha sob a “guarda direta”do curupira. Êste “é sempre propício ao caçador que se limita a matar conforme as suas necessidades” e castiga o que “mata por gôsto”, persegue as femeas e “os pequenos ainda novos”. Para Spix e Martius (Reise in Brasilien, III, p. 1109), o curupira, menos terrivel que o jurupari, é um espirito-do-mato caçoista, que encontrado sob diversas formas, entra em conversa com os indios, desperta ou entretem sentimentos de inimizade entre individuos e com malícia observa as desgraças humanas”. Maregrav e Nieuhofs, escreve A. Métraux (La réligion des Tupinamba, Paris, 1928, p. 65), “qualifient curupira d’esprit des passions (nu mentium), je ne sais trop pourquoi”. Batista Caetano (nota a F. Cardim, o. c., p. 2378), igualmente não achou “saida etimologica” para a significação dada por Maregrav. Segundo o autor do Vocabulario da Conquista, curupira pode “ser traduzido literalmente por sarnento, de curub sarna, e pir pele”. T. Sampaio, por sua vez, dá (o.c.): “Curupira, s., curupyra, o chagado , o individuo coberto de pustulas. Nome de um genio da mitologia selvagem, que presidia aos maus sonhos e pesadelos”. E. Stradelli, finalmente, faz derivar o vocabulo de curu abreviação de curumi, menino, e pira, corpo: corpo de menino.

Ha tambem nos rios outros fantasmas, a que chamam Igpupiára12Igpupiára (Anch. e F. Cardim, o. c., p. 89), hipupiara (Gaudava, Hist., p. 123), upupiara (G. Soares, o.c., p. 256), ypupiaprae (Barlaeus, p. 134) ou ipupiara, “genio das fontes, animal misterioso que os indios davam como o homem marinho, inimigo dos pescadores, mariscadores e lavadeiras”, de acôrdo com a definição T. Sampaio (o.c.). A proposito do etimo, escreve R. Garcia (nota a F. Cardim, p. 139): “O nome tupi serve de prova de que a idéa era familiar ás gentes dêsse grupo importante. Sua etimologia consigna Batista Caetano em upypcara, ou y-pypiára, em que aparecem os elementos y agua, e pypiára de dentro, do íntimo: o que é de dentro dagua, o que vive no fundo dagua, o aquatico; o nome era tambem atribuido a peixes, especialmente á baleia”. É o “monstro marinho” que em 1564 se matou em São Vicente, segundo Gandavo., isto é, que moram n’agua, que matam do mesmo aos Indios. Não longe de nós ha um rio habitado por Cristãos, o que os Indios atravessavam outrora em pequenas canôas, que fazem de um só tronco ou de cortiça, onde eram muitas vezes afogados por eles, antes que os Cristãos para lá fossem.

Ha tambem outros, maximè nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá13Baetatá, maetatá ou boitatá, um dos genios da mitologia selvagem, é o fogo fatuo, a fosforescencia, e traduz-se por “coisa que é toda fogo, luzeiro”(T. Sampaio, o. c.). A mesma significação tinha o vocabulo macaièra., que quer dizer “cousa de fogo”, o que é o mesmo como se dissesse “o que é todo fogo”. Não se vê outra cousa senão facho cintilante correndo daqui para ali; acomete rapidamente os Indios e mata-os, como os curupiras: o que seja isto, ainda não se sabe com certeza.

Ha tambem outros espectros do mesmo modo pavorosos, que não só assaltam os Indios, como lhes causam dano; o que não admira, quando por êstes e outros meios semelhantes, que longo fôra enumerar, quer o demonio tornar-se formidavel a êstes Brasis, que não conhecem a Deus, e exercer contra eles tão cruel tirania.

Dêstes Brasis direi, em último lugar, que quasi nenhum se encontra entre eles afetado de deformidade alguma natural; acha-se raramente um cego, um surdo, um mudo ou um coxo, nenhum nascido fóra de tempo14Na carta XV, explica a ausencia de deformidades entre os indios, que enterravam os nascidos “com alguma falta ou deformidade, e por isso mui raramente se acha algum coxo, torto ou mudo em esta nação”. – V. A. Métraux (o. c., p. 102).. Todavia, ha pouco tempo, em uma aldeia de Indios, a uma ou duas milhas de Piratininga, nasceu uma criancinha, ou antes um monstro, cujo nariz se estendia até ao queixo, tinha a bôca abaixo dêste, os peitos e as costas semelhantes ao lagarto aquatico, cobertas de horrendas escamas as partes genitais perto dos rins; a qual seu pai, assim que nasceu, fez enterrar viva. A esta morte condenam tambem os que suspeitam terem sido concebidos em adulterio.

Não é talvez menos para admirar o ter nascido em Piratininga um porco hermafrodita que, segundo creio, ainda está vivo.

Narrei essas cousas brevemente, como pude, posto que não duvides que haja muitas outras dignas de menção, que são desconhecidas a nós, ainda aqui pouco praticos. Rogamos entretanto aos que achem prazer em ler e ouvir estas cousas, queiram tomar o trabalho de orar por nós e pela conversão dêste país.

Escrito em São Vicente, que é a última povoação dos Portugueses na India Brasilica voltada para o Sul, no ano do Senhor 1560, no fim do mês de Maio. O minimo da Companhia de Jesus.

Fonte:
ANCHIETA, Padre José de. Carta de São Vicente, 1560. São Paulo: Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. 1997, pp.31-35.

MARCGRAVE, George; PISO, Willem. 1648. Historia Naturalis Brasiliae… in qua non tantum plantae et animalia, sed et indigenarum morbi, ingenia et mores describuntur et iconibus supra quingentas illustrantur. Lugdun. Batavorum, apud Franciscus Hackium et Amstelodami apud Lud. Elzevirium. [Organizado por Joannes de Laet]